O meu sótão é especial. Porque
está na casa onde cresci e pela qual absorvi o mundo em que vivo. Tem uma telha
de vidro, que deixa a luz embater directamente num dos pilares centrais, onde
está o nosso antigo espelho da casa-de-banho. Daqueles antigos, redondos,
debruados a plástico de cor – verde. Acho que já tem ferrugem e está partido
num dos lados, mas não vai para o lixo: nunca se sabe se pode voltar a ser preciso;
e é uma recordação. Quando estava posto na parede, eu tinha de saltar para me
conseguir ver ao espelho. O que veio a seguir era grande, vinha até mesmo ao
lavatório e podia ver-me de qualquer lugar da casa-de-banho.
No centro do sótão estão os
bancos corridos de madeira. Eram de uma antiga escola onde a minha avó
trabalhou e chegaram a estar no jardim da minha casa. Sei isso porque a minha
mãe me contou, não me lembro de os ver no quintal. Por cima dos bancos estão
caixas com brinquedos meus. Os que resistiram ao assalto que houve à minha
casa, há uns anos. Alguns ficaram em sacos, fora de caixas, pelo que
conseguimos sempre avistar uma montanha russa azul, por onde desciam pinguins
eléctricos. E uma boneca tipo Nancy, mas patinadora. A minha preferida era a Zézinha,
que está dentro do saco, protegida. A Zézinha já existia antes de mim e
acompanhou-me durante toda a infância. Era ela que dormia comigo. Tinha um
carrinho de bebé próprio para ela, vermelho, mas estragou-se quando o deixei
atrás do carro e o meu pai lhe passou por cima. Tenho uma fotografia a passear
a Zézinha no carrinho de bebé. E sei que era Inverno, porque tenho um daqueles
casacos de lã grossa, provavelmente feito pela minha avó, e, claro, um chapéu
de palha, porque estava Sol e eu nunca podia vir brincar para a rua sem por o
chapéu na cabeça.
Também está o meu antigo carrinho
de bebé no sótão. E a cadeirinha de por no carro. É forrado a tecido com um
xadrez azul escuro e vermelho e é daquelas coisas pesadas, sólidas, resistente.
Feitas daquele plástico antigo, duro, criado para durar uma vida.
O telhado desenha um prisma triangular
e, para chegarmos às coisas que estão no fundo, temos de nos baixar. É lá que
está o cesto que a minha avó trouxe para Lisboa quando veio da província.
Daqueles de verga, com duas abas com pegas para fechar, como se fosse uma
pequena casa. Também existem malas de viagem antigas, de pele colorida,
rectangulares, com fechos de metal, que o meu avô comprou antes de ir trabalhar
para África – Sudão, Moçambique. São malas de que não nos servimos: não têm rodas,
são pesadas, já não se usam. Mas ainda estão boas e a maior parte têm roupas
nossas que já não vestimos. A minha mãe guardou algumas roupas minhas de bebé e
sei que parte estará dentro dessas malas. Muita coisa foi dada, outra
emprestada. Sei lá quantos bebés vestiram os meus babygrows, vestidos, pijamas.
E estão agora guardados para quando eu tiver filhos os poder voltar a usar.
Também há garrafões de vidro,
antigos, outros ainda com a cobertura em verga, daqueles que havia antes dos
garrafões cobertos a plástico. Há caixotes sem tampa cheios de frascos, uns com
formato irregular, outros, a deixar reconhecer as velhas embalagens de Tofina,
Nescafé.
Dantes, eu só podia ir ao sótão com o meu pai. A
entrada faz-se por um alçapão que está na despensa, ao lado da cozinha. Para lá
chegarmos, temos de deslocar um escadote que está fixo na parede, encaixar os
pés, para não ficar instável; subir com cuidado, abrir o alçapão, procurar
apoio nos semi-círculos em ferro amarelo que estão já no chão do sótão, e hop!
Vale o esforço. Há sempre uma sensação de surpresa quando a cabeça se soergue
do chão e alcança a visão das coisas que sabemos que sempre lá estiveram e que
queremos que continuem sempre lá. Como se
de uma experiência mística se tratasse, a ida ao sótão. Agora já posso ir lá
sozinha, porque os meus pais já sabem que não caio do escadote e consigo fechar
o alçapão no fim.
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